Crítica: Os Incríveis (The Incredibles, 2004)

Os Incríveis, sem dúvidas, marcou a infância de muita gente, inclusive a de quem vos escreve. Com a aproximação do segundo filme da franquia, resolvi rever o filme de 2004. Claro que fui tomado por uma boa nostalgia, mas pude perceber que o sucesso do longa se deve, em especial, à sua qualidade inquestionável.

O filme se passa em um mundo onde super-heróis são comuns. Porém, após certos acontecimentos, vários processos começam a ser movidos contra eles. Com isso, os heróis se tornam proibido, sendo obrigados a esconder seus poderes da sociedade e viverem vidas normais. Mesmo com um universo à parte, Os Incríveis se destaca focando nas relações familiares. É um desentendimento entre os irmãos, o cansaço do trabalho, a dificuldade em fazer o filho comer legumes, tudo está presente no filme. Não é uma família comum (afinal, todos tem super-poderes), mas possuem problemas, assim como todas as outras, aproximando o espectador da família Parr.

Apesar do visual caricato dos personagens, o longa consegue ser palpável. Os detalhes da animação e a construção dos cenários tornam o mundo do filme crível. A propósito, que cenários! A cena em que Dash (Flash) corre pela floresta fugindo e a batalha final na cidade mostra a grandiosidade e perfeição da produção. O roteiro ainda tem o cuidado de criar personagens com características particulares: um é mais briguento e inconsequente, a outra é mais tímida e contida, o que, novamente, os humaniza. Inclusive, com o vilão não é diferente. Ele possui um desenvolvimento cauteloso e uma motivação extremamente plausível, sendo um antagonista excepcionalmente bem construído.

A direção de Brad Bird, que também dirigiu O Gigante de Ferro, de 1999, é impecável. As cenas de ação são frenéticas, com planos impressionantes, acompanhados de uma trilha sonora empolgante. O diretor ainda faz um excelente trabalho na combinação dos diferentes poderes da família protagonista, sempre de forma criativa. Outro aspecto em que o filme se destaca é em lidar com a nostalgia dos antigos super-herói (afinal, após uma vida heróica, quem quer ser uma pessoa comum?) e a repulsa causada pela repercussão negativa das pessoas para com os poderosos. Várias questões que o gênero (entenda por “gênero de super-herói”) não costuma tratar são trabalhadas aqui, pois é sensato pensar que super-heróis não são totalmente perfeitos em suas ações e que nem todo mundo os aprovaria. Se você já se perguntou: como seria se os super-heróis tivessem uma vida comum (ou tentassem), encontrará uma resposta satisfatória e criativa aqui.

Vale ressaltar a flexibilidade do roteiro em agradar crianças e adultos, misturando temas mais complexos (família, trauma, mídia), e sendo engraçado na dose certa, o longa consegue agradar todas as idades. Esse ponto, inclusive, talvez tenha sido o principal fator para ter tornado Os Incríveis no que ele é hoje.


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Crítica: Oito Mulheres e um Segredo (Ocean’s 8, 2018)

Oito Mulheres e um Segredo conta a história de Debbie Ocean (irmã de Danny Ocean) que, após sair da prisão, decide colocar em prática um plano de roubar uma joia de $150 milhões no baile anual de gala do Met, plano esse que ela demorou mais de 5 anos na prisão para planejar. Para isso, ela monta uma equipe de especialistas para concretizar seu objetivo.

O filme é um reboot/continuação da trilogia iniciada pelo filme Onze Homens e um Segredo. E, já na primeira cena, o diretor demonstra total despreocupação com as inevitáveis comparações feitas com o longa de 2001, praticamente refazendo a cena inicial deste.

A estrutura narrativa é a mesma: a formação da equipe junto com a apresentação dos integrantes, o planejamento e a execução do plano. As características e funções das personagens também lembram aos da trilogia, deixando o novo filme do universo familiar demais. Não chega a ser uma cópia, mas existe um senso de que já vimos tudo aquilo.

Dentre as atuações, Anne Hathaway se destaca dando facetas à uma personagem multidimensional, que varia entre segurança e vulnerabilidade. Sandra Bullock faz uma mulher manipuladora e ambiciosa, e Cate Blanchett e Helena Bonham Carter estão bem no papel. Porém, Sarah Poulson, Rihanna, Mindy Kaling e Awkwafina se esforçam, mas são sabotadas pelo roteiro, interpretando personagens rasas, que se resumem a suas habilidades e funções dentro do plano.

A trilha sonora dá charme ao filme, e vale ressaltar a montagem de Juliette Welfling, que é dinâmica, mantendo a trama fluída e segurando nossa atenção durante quase toda projeção. Já a direção de Gary Ross (Jogos Vorazes) até tem alguns jogos de câmera interessantes, mas não se destaca.

Diferente do filme protagonizado por George Clooney, as mulheres não encontram grandes dificuldades, e em nenhum momento tememos um problema que pode comprometer o plano. Isso tira qualquer senso de tensão no ato final, fazendo com que a principal característica de um heist movie se perca. Não é que tudo seja executado com perfeição, mas quando algo sai do planejado, é resolvido com tamanha facilidade e pressa, sem antes mesmo deixar o espectador sentir o peso da cena. No final, ainda, um personagem totalmente deslocado da trama é introduzido como tentativa de deixar o final mais perigoso, mas falha consideravelmente. No geral, o ponto alto de Oito Mulheres e um Segredo é a interação das personagens, principalmente pelo talento do elenco, mas que é pouco aproveitado pelo fraco roteiro.

 


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Missão Impossível: Efeito Fallout – Resenha [Sem spoilers]

 

Poucas adaptações de séries antigas para o cinema costumam vingar, porem missão impossível é um dos poucos filmes que consegue a cada ano se superar e entregar algo que o publico realmente não se decepciona. Com Tom Cruise no papel de Ethan hunt,  Missão Impossível: Efeito fallout é o sexto filme da franquia, que conta com a marcante direção de Christopher McQuarrie,(Missão impossível : Nação Secreta , Os suspeitos – 1993, Jack Reacher, etc) e sem sombra de duvidas pode ser considerado um dos melhores filmes da franquia.

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Crítica: Aniquilação (Annihilation, 2018)

Quando seu marido retorna repentinamente, a bióloga Lena parte em uma
missão com outras 4 cientistas para estudar o surgimento do misterioso e
perigoso “Brilho”, que delimita a Área X, onde as leis da natureza e da física
não se aplicam.

Aniquilação é escrito e dirigido pelo Alex Garland, que fez um trabalho
excepcional no filme Ex Machina (2015). Assim como em seu primeiro trabalho,
o diretor faz um ótimo trabalho na ambientação do longa, criando tensão e uma
sensação de que algo ruim vai acontecer a qualquer momento. Ele não se
preocupa em fazer um filme acessível ou de fácil entendimento. As respostas
não vem de mão beijada, desafiando o telespectador a pensar.

O principal tema de Aniquilação talvez seja a tendência humana de
autodestruição, seja ela intencional ou não. O filme também trata de depressão
e suicídio, mas sempre os diferenciando. E a história inteira se amarra nisso,
desde o começo, quando, por exemplo, Lena está dando uma aula de biologia
e cita células cancerígenas, que rima perfeitamente com o tema central do
filme.

Após uma série de fracassos nas missões dentro da “Área X”, uma pergunta
conveniente seria: por que diabos essas mulheres estão indo para uma missão
quase que suicida, visto que até mesmo os militares mais treinados não
voltaram? Eis que com um curto diálogo, o roteiro responde esse
questionamento de forma convincente. Porém, o roteiro é ineficiente ao
desenvolver às cientistas que acompanham Lena, fazendo com que se tenha
uma grande diferença de simpatia do telespectador para com as personagens.
Dito isso, é importante ressaltar que, ainda assim, Jennifer Jason Leigh (Dr.
Ventress), Gina Rodriguez (Anya Thorensen), Tessa Thompson (Josie Radek)
e Tuva Novotny (Cass Sheppard), mesmo com pouca ajuda do roteiro,
convencem em suas interpretações. Mas o destaque fica, claro, para Natalie
Portman, que oscila entre a bióloga inteligente e ex-militar e a mulher
devastada pelos acontecimentos que precederam a missão.

Com 3 linhas temporais (antes, durante e após a missão), a montagem de
Barney Pilling é impecável ao mostrar os acontecimentos anteriores, ajudando
no entendimento de certas situações e atitudes, e mostrar o interrogatório de
Lena após a missão, despertando ansiedade em como foi o desfecho da missão. Se
aproveitando das características peculiares do Brilho, o design de produção
cria um mundo multicolorido e cria criaturas que variam entre o encantador e o
assustador, ressaltando a grandiosidade daquele universo.

O final de Aniquilação navega no abstrato, mas acaba exagerando e ficando
visualmente carregado, soando um pouco pretensioso e auto-indulgente. Mesmo assim, é um final satisfatório para a trama: deixa interpretações em aberto e convida o telespectador à revisitar o longa ou, no mínimo, ir atrás de teorias e explicações sobre o que aconteceu.

 




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The Handmaid’s Tale: crítica da segunda temporada

Após uma premiada primeira temporada, a Hulu obviamente decidiu renovar The Handmaid’s Tale para uma segunda temporada. A dúvida de todos era: a série tem mais o que mostrar sobre a vida da aia na república de Gilead? E eu lhes digo que sim.

Esse texto contém spoiler da série. Leia se já tiver assistido ou por sua conta em risco.

A temporada começa com a fuga de June e seu difícil caminho rumo ao Canadá. A fuga não dá certo e a aia é levada de volta para a casa dos Waterford. Vimos nessa temporada June ser torturada de várias maneiras. Tortura física, psicológica, o sentimento de culpa pelo rastro que a tentativa de fuga dela deixou. Vi muitas pessoas dizendo que a série tinha virado uma espécie de torture porn, onde víamos June ser torturada episódio após episódio. Eu acho que eles retrataram aquilo que precisavam. Ali é um mundo difícil, opressor. A fuga de uma aia grávida é algo sério, quebrar a personalidade dela, colocar toda a culpa em June e deixar Offred livre para ser a “aia boazinha” é cruel mas parece bem algo que aquele sistema faria, na tentativa de se preservar.  Mas durante a temporada vimos June ir de total rebelde para submissa e etão rebelde de novo. Confesso que esse vai e vem me cansou um pouco. O fato dela fugir, voltar para a casa, fugir de novo e decidir ficar em Gilead também me preocupa, pois não quero que ela volte a casa dos Waterford de novo. Sei que é importante para a série a dinâmica entre June e os moradores da residência mas acho que já era de andarmos com isso e encontrar novos meios de narrativa.

Por falar em dinâmica, a melhor coisa para mim foi a interação entre June e Serena. Que construção de personagem maravilhosa a que fizeram com Serena! É, para mim, a personagem mais complexa da série. É difícil para quem gosta de dividir personagens em bons e maus saber onde colocar Serena. Ela faz muitas atrocidades e coisas ruins, não me entenda errado, não a estou defendendo. Mas você entende o que ela quer, entende o quanto ela perdeu para conseguir, entende que ela já foi longe demais para voltar atrás. Quando em visita ao Canadá, lhe é ofertado a possibilidade de fugir e ela nega. Não consigo ver Serena Joy fugindo e sendo bem recebida em nenhum grupo de refugiados de Gilead. Ela sabe que não pode fugir. Mas também sabe que aquele país do jeito que está não será bom para sua filha crescer e tenta mudar isso. Serena assumiu o comando do escritório de Fred enquanto ele estava internado por causa do atentado de Offglen. Contou com a ajuda de Nick e June. Ofereceu uma caneta a June e confiou nela. Apanhou do marido quando ele descobriu. Serena enfrentou os comandantes e em busca de um futuro melhor para sua filha os desafiou, lendo a bíblia para eles. Perdeu um dedo por isso. Embora castigada por isso, esse ato da esposa nos mostra o poder da união. E essa revolução esta começando a acontecer. Aias juntas, com o mayday, fizeram um pouco. Martas unidas conseguiram a fuga de Emily e a bebê Nicole. Esposas unidas podem conseguir mais. Aias, martas e esposas juntas podem mudar tudo. Sororidade.

A atriz Alexis Bledel entrou para o elenco fixo da série nessa segunda temporada mas achei sua participação tão pequena como na primeira. Pequena porém pontual. Conhecemos um pouco do seu passado como professora universitária, vimos sua esposa e seu filho. Há uma cena onde Emily e a família tentam ir para o Canadá mas Emily é impedida de ir pois aquele casamento não é mais válido. “É a lei”. É um episódio ainda no bem no começo da temporada mas que me fez pensar tanto e ainda está comigo agora que a temporada acabou. A forma como as leis podem mudar e de repente você está a mercê de uma nova lei. Apenas porque alguém disse que aquele pedaço de papel não valia mais nada, uma mulher se separou da família e virou escrava sexual de um regime ditatorial. Cena rápida mas para mim muito pesada.




Emily apareceu pouco mas vemos a aia perdendo a sanidade pouco a pouco, em cada uma de suas aparições. Estuprada sistematicamente e castrada na primeira temporada, aqui ela foi enviada para as colônias onde limpava lixo químico, seu corpo apodrecendo aos poucos, foi levada de volta a ser aia, de volta aos estupros, viu um comandante morrer em cima de si, foi dada a um novo comandante que não agia como os outros. Ali ela não sabia o que a esperava, se ele não queria fazer a cerimônia, então o que ele queria? Isso tudo explodiu quando ela esfaqueou Tia Lydia. Apenas torço que as coisas agora deem certo e ela consiga chegar no Canadá e reencontre sua família.

A temporada trouxe uma personagem nova, Eden. Achei que se livraram dela cedo demais. Eden era filha de Gilead, nova demais para lembrar como era antes e fiel a como as coisas são agora. Isso causava a constante tensão de que ela iria denunciar Nick e June, algo assim. Mas, embora rápida, a virada dada a personagem foi muito boa. Eden lia a bíblia, fazia anotações e tentava entender a Palavra. Quando Gilead pediu que ela não fosse verdadeira consigo mesma, ela sabia que aquilo era errado. Porque ela conhecia a verdade divina. E não a versão deturpada que Gilead faz da bíblia. E assim ela morreu, do lado do homem que amava e fiel a quem ela era e fiel ao Deus que ela acreditava. Foi um dos episódios mais tristes para mim. E um dos mais poderosos. Nos fala sobre o poder do conhecimento.

Momentos que merecem destaque:

  • A rima visual da bomba com a caneta foi linda. Duas armas diferentes mas igualmente poderosas.
  • O reencontro de June com a filha Hannah foi o momento que mais me arrancou lágrimas esse ano.
  • Janine amamentando a filha e provando que o amor pode curar.
  • As aias se apresentando umas as outras, pelos verdadeiros nomes pela primeira vez.
  • A mãe feminista de June presente no livro finalmente apareceu na série. Triste saber que ela morreu nas colônias.
  • Fred estuprando June pela primeira vez fora da cerimônia. Foi uma das cenas mais difíceis de ver da série. Não que os outros estupros fossem fáceis mas June sempre dizia que estava distante e naquele ela estava 100% ali.

Esse ano de The Handmaid’s Tale pode terminar com uma sensação de termos andado muito sem sair do canto mas a verdade é que saímos sim. A revolução está cada vez mais perto e é isso que quero ver na terceira temporada, Gilead finalmente começando a ruir. E vocês, o que acharam da segunda temporada? O que esperam da terceira? Deixem nos comentários e até ano que vem!




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Critica: Objetos Cortantes (Sharp Objects) – 1×2 – Dirt

Aparentemente, o 2º episódio de Objetos Cortantes pode ter parecido lento e muitos podem pensar isso, mas o episódio: Dirt (Sujo), segue a linha proposta da produção que é trazer à tona os demônios de Camille (Amy Adms) e entrelaças dentro da trama dando significados a medida que a história se desenvolve.

AVISO DE SPOILERS

Nesse episódio, entramos mais na cabeça de Camille e somos apresentados a outros personagens no qual resta a dúvida, quem está assassinando as crianças e quem está falando a verdade.

Em meio a essa dualidade, Camille tenta entender o que levaria uma pessoa a tal atitude. Nesse meio tempo, acontecem sucessivas lembranças de quando era mais nova, mostrando ao público algumas questões relacionadas ao convívio com sua mãe e quais são seus traumas! Grande feito do roteiro, onde insere flashback em determinados pontos sem prejudicar o andamento da história, mas quando se trata de flashback, deve haver cuidado para não cair na própria armadilha e usar o artifício como muleta desconstruindo toda estrutura já criada.

Interessante como dentro do episódio somos apresentados ao título do mesmo, uma vez que um lugar específico do piso da sala da casa dela estava sempre limpo, mas no presente encontra-se sujo, isso pode revelar algo a respeito da trama a longo prazo.

Nesse episódio vemos mais a relação entre Camille e o detetive RichardWillis (Chris Messina), personalidades bem diferentes em meio a uma situação crítica, até onde vai essa possível cooperação de ambos os lados? Acredito que essa relação pode ir bem mais a fundo e na medida a história avançar veremos o resultado.

Até o momento a série está desempenhando sua função, trazer uma história cheia de emoções e significados sem muita pressa e abordar os personagens aos poucos sem perder sua essência! Agora nos resta apenas aguardar e tentar decifrar o que está por vir!




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